CLAEP - Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais

Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais

Disciplinas Espirituais na Tradição Cristã e a Espiritualidade Pentecostal Série CLAEP

 

As Raízes Apostólicas: Oração, Jejum e Comunhão

Disciplinas Espirituais na Tradição Cristã e a Espiritualidade Pentecostal 

Série CLAEP, Bloco I, Parte 1

CLAEP — Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais


Antes de existirem desertos habitados por monges, antes de Bento de Núrsia escrever sua regra, antes de qualquer mosteiro ou qualquer claustro, já existia uma comunidade que orava, jejuava e partia o pão com uma regularidade que a própria Escritura registrou como traço distintivo de sua identidade. Essa comunidade não tinha teólogos da disciplina espiritual, nem vocabulário técnico para o que praticava. Tinha, porém, hábitos e são esses hábitos, mais do que qualquer teoria posterior, o verdadeiro ponto de partida desta série.

Este primeiro capítulo detém-se exatamente aí: na igreja apostólica, em seus primeiros anos, e nas práticas disciplinadas que a sustentaram. Não se trata de buscar nelas um sistema acabado de "disciplinas espirituais" esse vocabulário é posterior, mas de reconhecer, nas páginas do Novo Testamento, o solo a partir do qual toda a história que esta série percorrerá necessariamente cresce.

A primeira fotografia da igreja: Atos 2.42

Lucas, ao descrever a comunidade que emerge do Pentecostes, oferece uma frase que funciona como a primeira fotografia da Igreja cristã: e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações [1]. É notável que o verbo escolhido por Lucas "perseveravam" não descreve entusiasmo passageiro, mas continuidade tenaz, quase obstinada. No grego, esse verbo carrega a ideia de manter-se firme, de não afrouxar, de persistir apesar do custo.

Essa frase isola quatro práticas que merecem ser examinadas uma a uma, porque cada uma delas, isoladamente, será retomada e desenvolvida pela tradição cristã posterior e, séculos depois, pela espiritualidade pentecostal.

A doutrina dos apóstolos era o ensino transmitido oralmente antes mesmo de existir o cânon do Novo Testamento como o conhecemos. A comunidade não inventava sua fé a cada geração; recebia-a, guardava-a, transmitia-a com fidelidade. Há aqui uma disciplina de memória o compromisso de não deixar a experiência espontânea do Espírito substituir o conteúdo revelado da fé. É uma advertência que permanece atual: toda espiritualidade que se desliga da doutrina apostólica, por mais intensa que seja sua experiência, perde o ancoradouro que a impede de derivar.

A comunhão (em grego, koinonia) descreve algo mais radical do que companheirismo superficial. Lucas explica, nos versículos seguintes, em que ela consistia concretamente: os crentes vendiam suas propriedades e bens, e os repartiam entre todos, segundo a necessidade de cada um [2]. Não era apenas sentimento de proximidade, mas estrutura econômica de cuidado mútuo uma disciplina social, e não apenas afetiva.

O partir do pão referia-se, com grande probabilidade, tanto às refeições comuns compartilhadas entre os crentes quanto à celebração específica da Ceia do Senhor, instituída pelo próprio Jesus na noite de sua entrega [3]. A distinção entre as duas práticas nem sempre era nítida nos primeiros anos; o que importa, para os fins deste estudo, é que ambas eram regulares, esperadas, repetidas disciplina de memória encarnada em gesto físico.

As orações, no plural, sugerem tempos fixos de oração comunitária, possivelmente ainda vinculados aos horários judaicos de oração que os primeiros cristãos, ainda profundamente enraizados na sinagoga, mantinham por hábito. A oração apostólica não era apenas impulso individual; tinha ritmo, tinha horário, tinha comunidade.

O resultado dessas quatro práticas mantidas com perseverança, segundo o próprio relato de Lucas, era visível: o Senhor lhes acrescentava, cada dia, os que se haviam de salvar [4]. Há, já nesse primeiro retrato da Igreja, uma correlação que toda esta série voltará a encontrar: disciplina espiritual sustentada e multiplicação visível do Reino caminham juntas.

A oração que Jesus ensinou e a oração que Jesus viveu

Os apóstolos não inventaram essa disciplina de oração; herdaram-na, em primeiro lugar, do próprio Mestre tanto de seu ensino quanto, mais fundamentalmente, de seu exemplo.

Quando os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine a orar, ele não lhes oferece uma teoria sobre a oração, mas uma estrutura concreta e repetível o que conhecemos como o Pai Nosso [5]. É significativo que Jesus tenha respondido a um pedido de instrução com uma fórmula, e não com uma exposição abstrata: a oração, no ensino de Jesus, é primariamente algo que se pratica segundo um padrão, não algo que se teoriza.

Mais revelador ainda que o ensino é o próprio hábito de Jesus. Marcos registra que, levantando-se de madrugada, ainda escuro, saiu e foi para um lugar deserto, e ali orava [6] um detalhe que os evangelhos repetem em vários momentos da vida de Jesus, sempre antes de decisões ou eventos de particular importância. Lucas registra que, antes de escolher os doze apóstolos, Jesus passou a noite inteira em oração a Deus, num monte [7]. No Getsêmani, na hora mais decisiva de seu ministério terreno, a disciplina de Jesus atinge seu ponto mais intenso: ele ora repetidamente, com tal angústia que Lucas, num detalhe que os manuscritos mais antigos preservam de modo distinto, descreve seu suor como gotas de sangue [8].

Jesus também ensina, por meio de duas parábolas centrais, que a oração eficaz é caracterizada pela persistência disciplinada, não pela intensidade pontual. Na parábola do amigo importuno, ensina que se deve pedir, buscar e bater verbos no modo que sugere ação continuada, não gesto único [9]. Na parábola da viúva e do juiz injusto, Lucas explicita o propósito do ensino antes mesmo de narrá-lo: que era necessário orar sempre, e nunca desfalecer [10]. A oração, no ensino de Jesus, não é episódio emocional, mas disciplina de perseverança.

É essa dupla herança a fórmula ensinada e o hábito vivido que a igreja apostólica recebe e perpetua, e que, vinte séculos depois, sustenta tanto a oração litúrgica das tradições históricas quanto a vigília de oração de uma igreja pentecostal latino-americana num sábado à noite. A forma muda; a convicção de que a oração deve ser disciplinada, contínua e perseverante, permanece.

O jejum que não busca aplauso

O jejum ocupa, no ensino e na prática do Novo Testamento, lugar paralelo ao da oração e, com frequência, as duas disciplinas aparecem entrelaçadas.

O próprio Jesus jejua quarenta dias no deserto antes de iniciar seu ministério público, num período de preparação espiritual intensa que precede o enfrentamento direto com a tentação [11]. No Sermão do Monte, Jesus pressupõe que seus discípulos jejuarão não pergunta se devem fazê-lo, mas como devem fazê-lo advertindo apenas contra a ostentação religiosa, nunca contra a prática em si: que, quando jejuarem, não tenham aspecto triste como os hipócritas, mas lavem o rosto, de modo que o jejum seja conhecido por Deus, e não exibido aos homens [12].

A igreja apostólica internaliza essa instrução com notável literalidade institucional. Em Antioquia, conforme relata Lucas, foi durante um período em que os líderes da igreja ministravam ao Senhor e jejuavam que o Espírito Santo ordenou a separação de Barnabé e Saulo para a obra missionária [13]. O texto é preciso quanto à sequência: o jejum e a oração não são reação a uma decisão já tomada, mas o contexto disciplinado dentro do qual a decisão é discernida. Pouco depois, ao constituírem presbíteros nas igrejas recém-fundadas da Galácia, Paulo e Barnabé repetem exatamente o mesmo padrão: orando com jejuns, encomendaram-nos ao Senor em quem haviam crido [14].

Esse padrão jejum e oração como contexto disciplinado para discernimento de decisões ministeriais relevantes é, talvez, a contribuição mais diretamente aplicável da igreja apostólica à prática pentecostal contemporânea. Quando uma igreja pentecostal convoca um jejum corporativo antes de uma decisão pastoral importante, antes de uma campanha evangelística, antes da ordenação de novos obreiros, está consciente ou inconscientemente reproduzindo exatamente o padrão de Antioquia e da Galácia.

Koinonia: a disciplina de pertencer

A comunhão fraterna, já mencionada na descrição de Atos 2.42, merece exame mais detido como disciplina espiritual por direito próprio e não apenas como consequência natural e espontânea da fé compartilhada.

Lucas descreve a igreja primitiva perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comendo juntos com alegria e singeleza de coração [15]. A expressão "todos os dias" é decisiva: a comunhão apostólica não era evento ocasional, mas ritmo diário, estrutura disciplinada de vida compartilhada. O autor de Hebreus, escrevendo a uma comunidade posterior já tentada a abandonar a reunião regular possivelmente por medo da persecução ou por desgaste espiritual —, exorta com firmeza: não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns; antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele dia [16]. A expressão "como é costume de alguns" revela que o abandono da comunhão disciplinada já era, mesmo na geração apostólica, uma tentação real e reconhecida o que confirma que a comunhão exigia, desde o início, esforço intencional e não apenas impulso espontâneo.

Tiago, por sua vez, descreve uma dimensão particularmente concreta dessa disciplina comunitária: a confissão mútua de pecados, a oração intercessória pelos enfermos, e a unção com óleo em nome do Senhor, praticadas pelos presbíteros da igreja local [17]. Essa passagem antecipa, de modo notavelmente direto, práticas que se tornariam centrais na espiritualidade pentecostal: a oração de fé pelos enfermos, a confiança na eficácia da oração feita em comunidade, e o uso simbólico do óleo como expressão visível de uma realidade espiritual invisível.

O partir do pão: disciplina e memória

A Ceia do Senhor, instituída por Jesus na última noite com seus discípulos, recebe de Paulo uma das formulações mais cuidadosas de toda a literatura apostólica sobre disciplina ritual. Ao corrigir abusos na igreja de Corinto onde a celebração havia degenerado em ocasião de divisão social e excesso —, Paulo recorda a instituição original e insiste num princípio que vincula diretamente memória e disciplina: porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha [18].

A repetição ritual "todas as vezes" não é, na teologia paulina, mera formalidade vazia de sentido. É disciplina de memória ativa, prática que recusa deixar a comunidade esquecer aquilo que a constitui. Paulo chega a associar a celebração indisciplinada e irreverente da Ceia a consequências físicas concretas na congregação de Corinto, sinal da seriedade com que a tradição apostólica tratava essa prática [19]. A frequência com que igrejas pentecostais latino-americanas celebram a Ceia do Senhor geralmente mensal, em muitos casos mais frequente situa-se em linha direta de continuidade com essa convicção apostólica de que a memória da cruz precisa ser repetidamente encenada para permanecer viva no coração da comunidade.

Paulo, o atleta da fé

Nenhum escritor do Novo Testamento articula tão explicitamente a lógica da disciplina espiritual quanto o apóstolo Paulo, que recorre repetidamente à linguagem do treinamento atlético e militar para descrever a vida cristã.

Ao instruir Timóteo, Paulo contrasta diretamente exercício físico e exercício espiritual, sem desprezar o primeiro, mas subordinando-o ao segundo: o exercício físico para pouco é útil, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir [20]. O termo grego para "exercício" nessa passagem é precisamente gymnasion a mesma raiz de onde vem nossa palavra "ginásio". Paulo não está rejeitando a metáfora atlética; está insistindo que a piedade exige o mesmo tipo de treinamento disciplinado, dirigido a um alvo de valor incomparavelmente maior.

Em outra carta a Timóteo, Paulo multiplica as imagens: o bom soldado de Jesus Cristo não se embaraça com negócios desta vida; o atleta que compete só é coroado se competir legitimamente, segundo as regras; o lavrador que trabalha é o primeiro a gozar dos frutos [21]. Soldado, atleta, agricultor três figuras unidas pela mesma lógica: disciplina, regra, trabalho persistente, anteriores ao fruto que se colhe.

Mas é em sua própria autodescrição, na carta aos Coríntios, que Paulo formula com maior clareza a relação entre disciplina e graça que esta série inteira pressupõe. Ele compara a vida cristã a uma corrida em que todos correm, mas apenas um recebe o prêmio, e conclui: por isso, eu assim corro, não como indeterminadamente; assim luto, não como batendo no ar; mas dou golpes no meu próprio corpo, e o reduzo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado [22]. Paulo, o teólogo da graça que mais vigorosamente defendeu, em Romanos e Gálatas, que a justificação é unicamente pela fé, é também o apóstolo que mais explicitamente disciplina o próprio corpo. Não há contradição: a disciplina paulina não busca merecer a salvação já garantida pela graça, mas garantir que o mensageiro da graça permaneça apto, ao longo de toda a vida, para o serviço a que foi chamado.

Da Jerusalém apostólica ao altar pentecostal

O percurso deste primeiro capítulo permite uma conclusão que orientará toda a série: a espiritualidade pentecostal, quando ora em vigílias prolongadas, quando convoca jejuns corporativos antes de decisões importantes, quando cultiva a comunhão fraterna em pequenos grupos e células, quando celebra a Ceia do Senhor com regularidade, quando ora pelos enfermos com unção de óleo não está inventando práticas estranhas à fé cristã histórica. Está, com maior ou menor consciência histórica, repetindo o padrão exato que Lucas registrou na primeira comunidade cristã e que Paulo articulou com vigor teológico nas suas cartas.

A diferença entre a igreja de Atos e uma igreja pentecostal latino-americana contemporânea não está, portanto, nas práticas fundamentais oração, jejum, comunhão, partir do pão mas no contexto histórico, cultural e pneumatológico em que essas práticas são vividas. Reconhecer essa continuidade não diminui a originalidade da experiência pentecostal: dá-lhe, antes, a dignidade de pertencer a uma linhagem ininterrupta de vinte séculos. Na próxima parte desta série, seguiremos essa linhagem até o deserto egípcio do século III, onde monges solitários levaram a disciplina apostólica a um grau de intensidade que ainda hoje surpreende.


Notas

  1. Atos 2.42, ACF.

  2. Atos 2.44-45, ACF.

  3. Mateus 26.26-29; Lucas 22.19-20; 1 Coríntios 11.23-26.

  4. Atos 2.47, ACF.

  5. Mateus 6.9-13; Lucas 11.1-4.

  6. Marcos 1.35, ACF.

  7. Lucas 6.12, ACF.

  8. Lucas 22.39-44.

  9. Lucas 11.5-13, especialmente o v. 9 "pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á".

  10. Lucas 18.1, ACF.

  11. Mateus 4.1-2; Lucas 4.1-2.

  12. Mateus 6.16-18, ACF (paráfrase).

  13. Atos 13.2-3, ACF (paráfrase).

  14. Atos 14.23, ACF (paráfrase).

  15. Atos 2.46, ACF (paráfrase).

  16. Hebreus 10.25, ACF.

  17. Tiago 5.13-16.

  18. 1 Coríntios 11.26, ACF (paráfrase).

  19. 1 Coríntios 11.27-30.

  20. 1 Timóteo 4.8, ACF (paráfrase).

  21. 2 Timóteo 2.3-6 (paráfrase).

  22. 1 Coríntios 9.24-27, ACF (paráfrase).


Referências Bibliográficas 

Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida Fiel (ACF). 

BARCLAY, William. Comentário ao Novo Testamento Atos dos Apóstolos. 

BRUCE, F. F. O Livro de Atos. São Paulo: Vida Nova. 

CARSON, D. A. A Difícil Doutrina do Amor de Deus (sobre a doutrina bíblica da graça, pano de fundo teológico para o tema desta série). 

FEE, Gordon D. Primeira Epístola aos Coríntios. São Paulo: Vida Nova. 

FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina. São Paulo: Mundo Cristão. 

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão, vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã. 

LAND, Steven J. Pentecostal Spirituality: A Passion for the Kingdom. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993. 

MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova. 

STOTT, John. A Mensagem de Atos. São Paulo: Vida Nova. 

WILLARD, Dallas. O Espírito das Disciplinas. São Paulo: Editora Vida.


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 As Raízes Apostólicas: Oração, Jejum e Comunhão

Disciplinas Espirituais na Tradição Cristã e a Espiritualidade Pentecostal 

Série CLAEP, Bloco I, Parte 1

CLAEP — Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais


Antes de existirem desertos habitados por monges, antes de Bento de Núrsia escrever sua regra, antes de qualquer mosteiro ou qualquer claustro, já existia uma comunidade que orava, jejuava e partia o pão com uma regularidade que a própria Escritura registrou como traço distintivo de sua identidade. Essa comunidade não tinha teólogos da disciplina espiritual, nem vocabulário técnico para o que praticava. Tinha, porém, hábitos e são esses hábitos, mais do que qualquer teoria posterior, o verdadeiro ponto de partida desta série.

Este primeiro capítulo detém-se exatamente aí: na igreja apostólica, em seus primeiros anos, e nas práticas disciplinadas que a sustentaram. Não se trata de buscar nelas um sistema acabado de "disciplinas espirituais" esse vocabulário é posterior, mas de reconhecer, nas páginas do Novo Testamento, o solo a partir do qual toda a história que esta série percorrerá necessariamente cresce.

A primeira fotografia da igreja: Atos 2.42

Lucas, ao descrever a comunidade que emerge do Pentecostes, oferece uma frase que funciona como a primeira fotografia da Igreja cristã: e perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações [1]. É notável que o verbo escolhido por Lucas "perseveravam" não descreve entusiasmo passageiro, mas continuidade tenaz, quase obstinada. No grego, esse verbo carrega a ideia de manter-se firme, de não afrouxar, de persistir apesar do custo.

Essa frase isola quatro práticas que merecem ser examinadas uma a uma, porque cada uma delas, isoladamente, será retomada e desenvolvida pela tradição cristã posterior e, séculos depois, pela espiritualidade pentecostal.

A doutrina dos apóstolos era o ensino transmitido oralmente antes mesmo de existir o cânon do Novo Testamento como o conhecemos. A comunidade não inventava sua fé a cada geração; recebia-a, guardava-a, transmitia-a com fidelidade. Há aqui uma disciplina de memória o compromisso de não deixar a experiência espontânea do Espírito substituir o conteúdo revelado da fé. É uma advertência que permanece atual: toda espiritualidade que se desliga da doutrina apostólica, por mais intensa que seja sua experiência, perde o ancoradouro que a impede de derivar.

A comunhão (em grego, koinonia) descreve algo mais radical do que companheirismo superficial. Lucas explica, nos versículos seguintes, em que ela consistia concretamente: os crentes vendiam suas propriedades e bens, e os repartiam entre todos, segundo a necessidade de cada um [2]. Não era apenas sentimento de proximidade, mas estrutura econômica de cuidado mútuo uma disciplina social, e não apenas afetiva.

O partir do pão referia-se, com grande probabilidade, tanto às refeições comuns compartilhadas entre os crentes quanto à celebração específica da Ceia do Senhor, instituída pelo próprio Jesus na noite de sua entrega [3]. A distinção entre as duas práticas nem sempre era nítida nos primeiros anos; o que importa, para os fins deste estudo, é que ambas eram regulares, esperadas, repetidas disciplina de memória encarnada em gesto físico.

As orações, no plural, sugerem tempos fixos de oração comunitária, possivelmente ainda vinculados aos horários judaicos de oração que os primeiros cristãos, ainda profundamente enraizados na sinagoga, mantinham por hábito. A oração apostólica não era apenas impulso individual; tinha ritmo, tinha horário, tinha comunidade.

O resultado dessas quatro práticas mantidas com perseverança, segundo o próprio relato de Lucas, era visível: o Senhor lhes acrescentava, cada dia, os que se haviam de salvar [4]. Há, já nesse primeiro retrato da Igreja, uma correlação que toda esta série voltará a encontrar: disciplina espiritual sustentada e multiplicação visível do Reino caminham juntas.

A oração que Jesus ensinou e a oração que Jesus viveu

Os apóstolos não inventaram essa disciplina de oração; herdaram-na, em primeiro lugar, do próprio Mestre tanto de seu ensino quanto, mais fundamentalmente, de seu exemplo.

Quando os discípulos pedem a Jesus que lhes ensine a orar, ele não lhes oferece uma teoria sobre a oração, mas uma estrutura concreta e repetível o que conhecemos como o Pai Nosso [5]. É significativo que Jesus tenha respondido a um pedido de instrução com uma fórmula, e não com uma exposição abstrata: a oração, no ensino de Jesus, é primariamente algo que se pratica segundo um padrão, não algo que se teoriza.

Mais revelador ainda que o ensino é o próprio hábito de Jesus. Marcos registra que, levantando-se de madrugada, ainda escuro, saiu e foi para um lugar deserto, e ali orava [6] um detalhe que os evangelhos repetem em vários momentos da vida de Jesus, sempre antes de decisões ou eventos de particular importância. Lucas registra que, antes de escolher os doze apóstolos, Jesus passou a noite inteira em oração a Deus, num monte [7]. No Getsêmani, na hora mais decisiva de seu ministério terreno, a disciplina de Jesus atinge seu ponto mais intenso: ele ora repetidamente, com tal angústia que Lucas, num detalhe que os manuscritos mais antigos preservam de modo distinto, descreve seu suor como gotas de sangue [8].

Jesus também ensina, por meio de duas parábolas centrais, que a oração eficaz é caracterizada pela persistência disciplinada, não pela intensidade pontual. Na parábola do amigo importuno, ensina que se deve pedir, buscar e bater verbos no modo que sugere ação continuada, não gesto único [9]. Na parábola da viúva e do juiz injusto, Lucas explicita o propósito do ensino antes mesmo de narrá-lo: que era necessário orar sempre, e nunca desfalecer [10]. A oração, no ensino de Jesus, não é episódio emocional, mas disciplina de perseverança.

É essa dupla herança a fórmula ensinada e o hábito vivido que a igreja apostólica recebe e perpetua, e que, vinte séculos depois, sustenta tanto a oração litúrgica das tradições históricas quanto a vigília de oração de uma igreja pentecostal latino-americana num sábado à noite. A forma muda; a convicção de que a oração deve ser disciplinada, contínua e perseverante, permanece.

O jejum que não busca aplauso

O jejum ocupa, no ensino e na prática do Novo Testamento, lugar paralelo ao da oração e, com frequência, as duas disciplinas aparecem entrelaçadas.

O próprio Jesus jejua quarenta dias no deserto antes de iniciar seu ministério público, num período de preparação espiritual intensa que precede o enfrentamento direto com a tentação [11]. No Sermão do Monte, Jesus pressupõe que seus discípulos jejuarão não pergunta se devem fazê-lo, mas como devem fazê-lo advertindo apenas contra a ostentação religiosa, nunca contra a prática em si: que, quando jejuarem, não tenham aspecto triste como os hipócritas, mas lavem o rosto, de modo que o jejum seja conhecido por Deus, e não exibido aos homens [12].

A igreja apostólica internaliza essa instrução com notável literalidade institucional. Em Antioquia, conforme relata Lucas, foi durante um período em que os líderes da igreja ministravam ao Senhor e jejuavam que o Espírito Santo ordenou a separação de Barnabé e Saulo para a obra missionária [13]. O texto é preciso quanto à sequência: o jejum e a oração não são reação a uma decisão já tomada, mas o contexto disciplinado dentro do qual a decisão é discernida. Pouco depois, ao constituírem presbíteros nas igrejas recém-fundadas da Galácia, Paulo e Barnabé repetem exatamente o mesmo padrão: orando com jejuns, encomendaram-nos ao Senor em quem haviam crido [14].

Esse padrão jejum e oração como contexto disciplinado para discernimento de decisões ministeriais relevantes é, talvez, a contribuição mais diretamente aplicável da igreja apostólica à prática pentecostal contemporânea. Quando uma igreja pentecostal convoca um jejum corporativo antes de uma decisão pastoral importante, antes de uma campanha evangelística, antes da ordenação de novos obreiros, está consciente ou inconscientemente reproduzindo exatamente o padrão de Antioquia e da Galácia.

Koinonia: a disciplina de pertencer

A comunhão fraterna, já mencionada na descrição de Atos 2.42, merece exame mais detido como disciplina espiritual por direito próprio e não apenas como consequência natural e espontânea da fé compartilhada.

Lucas descreve a igreja primitiva perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comendo juntos com alegria e singeleza de coração [15]. A expressão "todos os dias" é decisiva: a comunhão apostólica não era evento ocasional, mas ritmo diário, estrutura disciplinada de vida compartilhada. O autor de Hebreus, escrevendo a uma comunidade posterior já tentada a abandonar a reunião regular possivelmente por medo da persecução ou por desgaste espiritual —, exorta com firmeza: não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns; antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele dia [16]. A expressão "como é costume de alguns" revela que o abandono da comunhão disciplinada já era, mesmo na geração apostólica, uma tentação real e reconhecida o que confirma que a comunhão exigia, desde o início, esforço intencional e não apenas impulso espontâneo.

Tiago, por sua vez, descreve uma dimensão particularmente concreta dessa disciplina comunitária: a confissão mútua de pecados, a oração intercessória pelos enfermos, e a unção com óleo em nome do Senhor, praticadas pelos presbíteros da igreja local [17]. Essa passagem antecipa, de modo notavelmente direto, práticas que se tornariam centrais na espiritualidade pentecostal: a oração de fé pelos enfermos, a confiança na eficácia da oração feita em comunidade, e o uso simbólico do óleo como expressão visível de uma realidade espiritual invisível.

O partir do pão: disciplina e memória

A Ceia do Senhor, instituída por Jesus na última noite com seus discípulos, recebe de Paulo uma das formulações mais cuidadosas de toda a literatura apostólica sobre disciplina ritual. Ao corrigir abusos na igreja de Corinto onde a celebração havia degenerado em ocasião de divisão social e excesso —, Paulo recorda a instituição original e insiste num princípio que vincula diretamente memória e disciplina: porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha [18].

A repetição ritual "todas as vezes" não é, na teologia paulina, mera formalidade vazia de sentido. É disciplina de memória ativa, prática que recusa deixar a comunidade esquecer aquilo que a constitui. Paulo chega a associar a celebração indisciplinada e irreverente da Ceia a consequências físicas concretas na congregação de Corinto, sinal da seriedade com que a tradição apostólica tratava essa prática [19]. A frequência com que igrejas pentecostais latino-americanas celebram a Ceia do Senhor geralmente mensal, em muitos casos mais frequente situa-se em linha direta de continuidade com essa convicção apostólica de que a memória da cruz precisa ser repetidamente encenada para permanecer viva no coração da comunidade.

Paulo, o atleta da fé

Nenhum escritor do Novo Testamento articula tão explicitamente a lógica da disciplina espiritual quanto o apóstolo Paulo, que recorre repetidamente à linguagem do treinamento atlético e militar para descrever a vida cristã.

Ao instruir Timóteo, Paulo contrasta diretamente exercício físico e exercício espiritual, sem desprezar o primeiro, mas subordinando-o ao segundo: o exercício físico para pouco é útil, mas a piedade para tudo é proveitosa, tendo a promessa da vida presente e da que há de vir [20]. O termo grego para "exercício" nessa passagem é precisamente gymnasion a mesma raiz de onde vem nossa palavra "ginásio". Paulo não está rejeitando a metáfora atlética; está insistindo que a piedade exige o mesmo tipo de treinamento disciplinado, dirigido a um alvo de valor incomparavelmente maior.

Em outra carta a Timóteo, Paulo multiplica as imagens: o bom soldado de Jesus Cristo não se embaraça com negócios desta vida; o atleta que compete só é coroado se competir legitimamente, segundo as regras; o lavrador que trabalha é o primeiro a gozar dos frutos [21]. Soldado, atleta, agricultor três figuras unidas pela mesma lógica: disciplina, regra, trabalho persistente, anteriores ao fruto que se colhe.

Mas é em sua própria autodescrição, na carta aos Coríntios, que Paulo formula com maior clareza a relação entre disciplina e graça que esta série inteira pressupõe. Ele compara a vida cristã a uma corrida em que todos correm, mas apenas um recebe o prêmio, e conclui: por isso, eu assim corro, não como indeterminadamente; assim luto, não como batendo no ar; mas dou golpes no meu próprio corpo, e o reduzo à submissão, para que, depois de pregar a outros, eu mesmo não venha a ser reprovado [22]. Paulo, o teólogo da graça que mais vigorosamente defendeu, em Romanos e Gálatas, que a justificação é unicamente pela fé, é também o apóstolo que mais explicitamente disciplina o próprio corpo. Não há contradição: a disciplina paulina não busca merecer a salvação já garantida pela graça, mas garantir que o mensageiro da graça permaneça apto, ao longo de toda a vida, para o serviço a que foi chamado.

Da Jerusalém apostólica ao altar pentecostal

O percurso deste primeiro capítulo permite uma conclusão que orientará toda a série: a espiritualidade pentecostal, quando ora em vigílias prolongadas, quando convoca jejuns corporativos antes de decisões importantes, quando cultiva a comunhão fraterna em pequenos grupos e células, quando celebra a Ceia do Senhor com regularidade, quando ora pelos enfermos com unção de óleo não está inventando práticas estranhas à fé cristã histórica. Está, com maior ou menor consciência histórica, repetindo o padrão exato que Lucas registrou na primeira comunidade cristã e que Paulo articulou com vigor teológico nas suas cartas.

A diferença entre a igreja de Atos e uma igreja pentecostal latino-americana contemporânea não está, portanto, nas práticas fundamentais oração, jejum, comunhão, partir do pão mas no contexto histórico, cultural e pneumatológico em que essas práticas são vividas. Reconhecer essa continuidade não diminui a originalidade da experiência pentecostal: dá-lhe, antes, a dignidade de pertencer a uma linhagem ininterrupta de vinte séculos. Na próxima parte desta série, seguiremos essa linhagem até o deserto egípcio do século III, onde monges solitários levaram a disciplina apostólica a um grau de intensidade que ainda hoje surpreende.


Notas

  1. Atos 2.42, ACF.

  2. Atos 2.44-45, ACF.

  3. Mateus 26.26-29; Lucas 22.19-20; 1 Coríntios 11.23-26.

  4. Atos 2.47, ACF.

  5. Mateus 6.9-13; Lucas 11.1-4.

  6. Marcos 1.35, ACF.

  7. Lucas 6.12, ACF.

  8. Lucas 22.39-44.

  9. Lucas 11.5-13, especialmente o v. 9 "pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á".

  10. Lucas 18.1, ACF.

  11. Mateus 4.1-2; Lucas 4.1-2.

  12. Mateus 6.16-18, ACF (paráfrase).

  13. Atos 13.2-3, ACF (paráfrase).

  14. Atos 14.23, ACF (paráfrase).

  15. Atos 2.46, ACF (paráfrase).

  16. Hebreus 10.25, ACF.

  17. Tiago 5.13-16.

  18. 1 Coríntios 11.26, ACF (paráfrase).

  19. 1 Coríntios 11.27-30.

  20. 1 Timóteo 4.8, ACF (paráfrase).

  21. 2 Timóteo 2.3-6 (paráfrase).

  22. 1 Coríntios 9.24-27, ACF (paráfrase).


Referências Bibliográficas 

Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida Fiel (ACF). 

BARCLAY, William. Comentário ao Novo Testamento Atos dos Apóstolos. 

BRUCE, F. F. O Livro de Atos. São Paulo: Vida Nova. 

CARSON, D. A. A Difícil Doutrina do Amor de Deus (sobre a doutrina bíblica da graça, pano de fundo teológico para o tema desta série). 

FEE, Gordon D. Primeira Epístola aos Coríntios. São Paulo: Vida Nova. 

FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina. São Paulo: Mundo Cristão. 

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão, vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã. 

LAND, Steven J. Pentecostal Spirituality: A Passion for the Kingdom. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993. 

MARSHALL, I. Howard. Atos: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova. 

STOTT, John. A Mensagem de Atos. São Paulo: Vida Nova. 

WILLARD, Dallas. O Espírito das Disciplinas. São Paulo: Editora Vida.


CLAEP Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais | Joinville, Santa Catarina, Brasil | Série: Disciplinas Espirituais na Tradição Cristã e a Espiritualidade Pentecostal 

Parte 1 de 14

 


Os Atletas do Deserto: Ascese, Oração e Jejum no Cristianismo Primitivo

Disciplinas Espirituais na Tradição Cristã e a Espiritualidade Pentecostal 

Série CLAEP, Bloco I, Parte 2

CLAEP — Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais

A igreja que perseverava em Jerusalém, orando, jejuando e partindo o pão, viveu seus primeiros séculos sob a sombra constante da perseguição. Ser cristão, nesse período, podia custar a própria vida e milhares pagaram esse preço, selando com sangue aquilo que professavam com a boca. Mas em 313, o Edito de Milão, promulgado por Constantino, mudou de forma irreversível a relação entre a Igreja e o Império: a fé cristã tornou-se lícita, depois tolerada, depois favorecida. O martírio vermelho a morte violenta pela fé deixou, para a maioria dos cristãos, de ser uma possibilidade cotidiana.

Foi exatamente nesse momento, e não por acaso, que multidões de homens e mulheres começaram a abandonar as cidades do Egito, da Síria e da Palestina rumo ao deserto. Alguns já haviam iniciado esse movimento antes mesmo do Edito de Milão, como resposta pessoal a um chamado que não dependia da política imperial; mas é depois de 313, quando a perseguição sistemática se torna exceção e não regra, que o fenômeno explode em escala. Os historiadores da espiritualidade cristã batizaram essa nova forma de radicalismo de martírio branco: já que o Império não mais oferecia a oportunidade de morrer pela fé, esses homens e mulheres escolheram morrer para o mundo, entregando corpo, vontade e apetites a uma disciplina tão severa quanto qualquer perseguição externa.

Este capítulo acompanha os primeiros protagonistas desse movimento:  Antão, Pacômio, Evágrio e Cassiano  e a disciplina cotidiana de jejum, vigília e oração que sustentava sua busca. Ao final, veremos por que esse capítulo, aparentemente tão distante da experiência pentecostal latino-americana, é, na verdade, um dos mais próximos de toda a série.

Antão do Egito: o pai dos monges e o combate no deserto

Antão nasceu por volta de 251 numa família copta relativamente próspera do Egito médio. Aos vinte anos, ainda jovem e recém-órfão de pais, ouviu ser lida na igreja a instrução de Jesus ao jovem rico: que vendesse tudo o que tinha, desse aos pobres, e o seguisse [1]. Antão tomou a palavra ao pé da letra  distribuiu suas terras, cuidou da irmã menor e, em seguida, entregou-se a uma vida de ascese progressivamente mais radical, primeiro nos arredores de sua aldeia, depois em túmulos abandonados, e finalmente, por volta de 285, numa fortaleza em ruínas em Pispir, onde viveria isolado por quase vinte anos.

É desse período de isolamento absoluto que vem o núcleo da tradição sobre Antão: a narrativa, escrita décadas depois por Atanásio de Alexandria em sua Vida de Antão, descreve um combate incessante contra pensamentos, memórias, medos e tentações que a tradição posterior chamaria de demônios  fome insuportável, lembranças da vida anterior, desejo sexual, desespero, visões aterradoras. Atanásio não retrata Antão como um herói invulnerável, mas como um homem que combate, cai, se levanta e persiste, sustentado por jejum extremo, oração contínua e uma disciplina corporal que ele mesmo compara, explicitamente, ao treinamento do atleta.

O detalhe mais revelador da narrativa talvez não seja o combate em si, mas seu desfecho: quando os companheiros finalmente derrubam a porta da fortaleza de Pispir, esperando encontrar um homem destruído por duas décadas de isolamento, encontram, ao contrário, alguém sereno, equilibrado, fisicamente saudável. A ascese, na leitura de Atanásio, não desfigura; integra. Essa obra teve um impacto que ultrapassou em muito o Egito: Agostinho de Hipona relata, em suas Confissões, que foi justamente a notícia da vida de Antão, trazida por um visitante à casa de um amigo em Milão, que precipitou a crise que o levaria à conversão [2].

De eremitas a comunidades: Pacômio e o nascimento do cenobitismo

Se Antão representa o ideal do combate solitário, Pacômio (c. 292–348) representa sua contrapartida necessária. Ex-soldado do exército romano convertido ao cristianismo após ser tratado com inesperada bondade por cristãos numa prisão de guerra, Pacômio experimentou, primeiro, a vida eremítica isolada  mas concluiu que a ascese sem estrutura comunitária corria o risco de se tornar autoindulgência disfarçada de rigor, sem ninguém para corrigir excessos ou sustentar o desanimado.

Por volta de 320, Pacômio fundou em Tabennesi, às margens do Nilo, a primeira comunidade cenobítica organizada da história cristã, um mosteiro onde os monges viviam sob o mesmo teto, partilhavam refeições, trabalho manual e horários fixos de oração comunitária, e obedeciam a um superior e a uma regra escrita. Em poucas décadas, essa forma de vida se multiplicou em vários mosteiros masculinos e femininos, reunindo milhares de monges sob a mesma disciplina.

A contribuição de Pacômio para esta série é decisiva: ele demonstra que a disciplina espiritual cristã, desde seus primeiros séculos, oscila entre dois polos legítimos e necessários  o combate pessoal e intransferível de cada crente diante de Deus, e a estrutura comunitária que sustenta, corrige e multiplica esse combate. Essa mesma tensão reaparecerá, com outro vocabulário, na Regra beneditina do século VI e, dezessete séculos depois, nas células e pequenos grupos que estruturam a vida disciplinada de tantas igrejas pentecostais latino-americanas.

Evágrio Pôntico e a cartografia da alma

Evágrio Pôntico (c. 345–399), monge letrado formado em Constantinopla antes de se estabelecer entre os eremitas do deserto de Nítria e Célia, no Egito, ofereceu à tradição ascética algo que Antão, com sua espiritualidade prática e pouco letrada, nunca pretendera oferecer: um mapa sistemático da vida interior. Em seu Tratado Prático, Evágrio identifica oito logismoi  pensamentos ou impulsos malignos que assaltam a alma , a saber: gula, fornicação, avareza, tristeza, ira, acídia, vanglória e soberba [3]. Séculos depois, essa lista seria reorganizada pelo papa Gregório Magno na tradição dos sete pecados capitais que o Ocidente conheceria.

Particularmente interessante é a descrição evagriana da acídia  o tédio espiritual, o desânimo que ataca sobretudo ao meio-dia, quando o tempo parece não passar e toda disciplina perde o sentido. Evágrio associa esse logismos ao "demônio do meio-dia" mencionado no Salmo 91 [4], oferecendo uma das primeiras análises psicológico-espirituais detalhadas de um fenômeno que qualquer pessoa que já tentou sustentar uma disciplina espiritual por semanas reconhecerá de imediato.

Para Evágrio, o objetivo de todo esse combate não é a mera repressão dos pensamentos, mas a apatheia  não impassibilidade estoica, mas a liberdade interior das paixões desordenadas, o solo a partir do qual se torna possível a oração pura, uma contemplação livre de imagens e conceitos, voltada inteiramente para Deus. Essa ênfase evagriana na oração que ultrapassa a palavra e o conceito será retomada, séculos depois, pela tradição hesicasta que examinaremos na próxima parte desta série.

João Cassiano: a ponte entre o Egito e o Ocidente

João Cassiano (c. 360–435) peregrinou por anos entre os mosteiros do Egito, recolhendo pessoalmente os ensinamentos dos grandes anciãos do deserto, antes de se estabelecer definitivamente em Marselha, na Gália, onde fundou dois mosteiros e escreveu duas obras que se tornariam o principal canal de transmissão da sabedoria egípcia para o cristianismo latino: as Instituições Cenobíticas e as Conferências.

Nas Conferências, Cassiano registra um ensinamento sobre a oração contínua que se tornaria seminal para toda a espiritualidade ocidental posterior: a recomendação de que o monge fixe a mente, ao longo de todo o dia e de toda ocupação, num único versículo curto  Cassiano recomenda especificamente o primeiro versículo do Salmo 70: Ó Deus, vem me livrar; Senhor, apressa-te em socorrer-me [5]. Repetida incessantemente, essa breve súplica funcionaria como âncora da mente errante, disponível em qualquer circunstância, sem exigir tempo separado nem lugar específico.

Essa técnica  uma frase curta, cristológica ou bíblica, repetida sem cessar como disciplina de oração contínua  é o elo perdido entre a prática apostólica de "orar sempre" e a Oração de Jesus que a tradição oriental desenvolverá plenamente, como veremos na próxima parte desta série. As obras de Cassiano exerceriam, ainda, influência direta sobre a Regra de São Bento, que examinaremos no Bloco II, tornando-o uma das figuras de charneira mais importantes  e menos lembradas  de toda a história da disciplina espiritual cristã.

Jejum, vigília e trabalho: a disciplina cotidiana do deserto

Por trás dessas figuras e desses tratados havia uma rotina extraordinariamente concreta. Os monges do deserto egípcio tipicamente faziam uma única refeição por dia, muitas vezes após o pôr do sol, composta de pão, sal, água e, ocasionalmente, algumas verduras; carne era praticamente ausente. O jejum não era exceção ritual, mas condição ordinária de vida  o oposto exato do padrão contemporâneo, em que o jejum é a interrupção pontual de uma rotina normalmente farta.

O trabalho manual  sobretudo a tecelagem de cestos e esteiras com folhas de palmeira  ocupava boa parte do dia, tanto por necessidade de subsistência quanto como antídoto deliberado contra a acídia evagriana: a mente ociosa, ensinavam os anciãos, é terreno fértil para o desânimo e a tentação. As vigílias noturnas, sustentadas pela recitação contínua dos Salmos  o saltério inteiro, muitas vezes, ao longo de uma semana , formavam a espinha dorsal da vida de oração, antecipando o que mais tarde se tornaria o ofício divino monástico.

Boa parte dessa sabedoria prática chegou até nós na forma de apotegmas  os Ditos dos Padres do Deserto, breves anedotas e sentenças atribuídas a figuras como Abba Poêmen, Abba Moisés ou Amma Sinclética, compiladas e transmitidas oralmente antes de serem registradas por escrito. Sua marca distintiva é a ausência quase total de especulação abstrata: são respostas concretas, muitas vezes surpreendentes, a perguntas concretas sobre como orar, como jejuar, como lidar com a raiva ou o orgulho  teologia pastoral em estado puro, nascida da experiência e não do gabinete.

Do combate espiritual do deserto à guerra espiritual pentecostal

É neste ponto que o deserto egípcio, aparentemente tão remoto, se aproxima com força surpreendente da espiritualidade pentecostal contemporânea. Os padres do deserto entendiam a vida interior como um campo de batalha real, onde forças espirituais hostis assaltam a mente e a vontade  e essa convicção exigia deles vigilância disciplinada, discernimento cuidadoso e, com frequência, o apoio de um pai ou mãe espiritual mais experiente.

O pentecostalismo latino-americano, com seu vocabulário próprio de guerra espiritual, cultos de libertação, jejuns de combate e discernimento de espíritos [6], reconhece intuitivamente a mesma convicção fundamental: que a fé cristã não se vive num terreno neutro, e que a disciplina  jejum, oração, vigilância  não é adorno devocional, mas armadura necessária, na linguagem de Paulo aos Efésios, contra as "assistências espirituais da maldade" [7].

É preciso, ao mesmo tempo, reconhecer uma diferença real: a ascese do deserto era predominantemente silenciosa, solitária e de longuíssima duração, ao passo que a guerra espiritual pentecostal é tipicamente comunitária, vocal e episódica. Mas a diferença de forma não deve obscurecer a convicção teológica comum: ambas as tradições recusam uma espiritualidade passiva, que assume a vitória sem exigir vigilância disciplinada para sustentá-la. Antão, tanto quanto qualquer pastor pentecostal que convoca sua congregação a um jejum de combate, sabia que a paz interior não é ausência de luta, mas fruto de um combate travado com disciplina e não abandonado.

Fica, ao final deste capítulo, um fio solto que a próxima parte desta série recolherá: a fórmula breve que Cassiano ensinava a repetir sem cessar  "Ó Deus, vem me livrar"  era apenas o embrião de uma tradição de oração incessante que a igreja oriental levaria a um desenvolvimento muito mais elaborado. Na próxima parte, seguimos essa linhagem até Constantinopla e o Monte Atos, onde a oração aprenderá, literalmente, a se tornar respiração.

Notas

1. Mateus 19.21, ACF (paráfrase).

2. Agostinho de Hipona, Confissões, Livro VIII, 6.14-15.

3. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, caps. 6-14 (lista clássica dos oito logismoi).

4. Salmo 91.6, ACF  tradicionalmente associado, na exegese patrística, ao "mal que se alastra ao meio-dia".

5. Salmo 70.1, ACF (paráfrase); cf. João Cassiano, Conferências X.10.

6. 1 Coríntios 12.10, sobre o discernimento de espíritos como dom espiritual.

7.  Efésios 6.10-18, ACF (paráfrase), especialmente o v. 12.


Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida Fiel (ACF).

AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões. São Paulo: Paulus.

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Vida de Antão. São Paulo: Paulus.

CASSIANO, João. Conferências. Rio de Janeiro: Paulinas.

CASSIANO, João. Instituições Cenobíticas. Rio de Janeiro: Paulinas.

CHITTY, Derwas J. The Desert a City. Crestwood: St Vladimir's Seminary Press.

EVÁGRIO PÔNTICO. Tratado Prático  Sobre os Oito Pensamentos Malignos. São Paulo: Paulus.

FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina. São Paulo: Mundo Cristão.

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão, vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã.

LAND, Steven J. Pentecostal Spirituality: A Passion for the Kingdom. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993.

MERTON, Thomas. A Sabedoria do Deserto. São Paulo: Paulus.

WAGNER, C. Peter. Oração de Guerra. Belo Horizonte: Editora Betânia.

WARD, Benedicta (trad.). Ditos dos Padres do Deserto. São Paulo: Paulus.

WILLARD, Dallas. O Espírito das Disciplinas. São Paulo: Editora Vida.


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