CLAEP - Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais

Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais

 


Os Atletas do Deserto: Ascese, Oração e Jejum no Cristianismo Primitivo

Disciplinas Espirituais na Tradição Cristã e a Espiritualidade Pentecostal 

Série CLAEP, Bloco I, Parte 2

CLAEP — Centro Latinoamericano de Estudos Pentecostais

A igreja que perseverava em Jerusalém, orando, jejuando e partindo o pão, viveu seus primeiros séculos sob a sombra constante da perseguição. Ser cristão, nesse período, podia custar a própria vida e milhares pagaram esse preço, selando com sangue aquilo que professavam com a boca. Mas em 313, o Edito de Milão, promulgado por Constantino, mudou de forma irreversível a relação entre a Igreja e o Império: a fé cristã tornou-se lícita, depois tolerada, depois favorecida. O martírio vermelho a morte violenta pela fé deixou, para a maioria dos cristãos, de ser uma possibilidade cotidiana.

Foi exatamente nesse momento, e não por acaso, que multidões de homens e mulheres começaram a abandonar as cidades do Egito, da Síria e da Palestina rumo ao deserto. Alguns já haviam iniciado esse movimento antes mesmo do Edito de Milão, como resposta pessoal a um chamado que não dependia da política imperial; mas é depois de 313, quando a perseguição sistemática se torna exceção e não regra, que o fenômeno explode em escala. Os historiadores da espiritualidade cristã batizaram essa nova forma de radicalismo de martírio branco: já que o Império não mais oferecia a oportunidade de morrer pela fé, esses homens e mulheres escolheram morrer para o mundo, entregando corpo, vontade e apetites a uma disciplina tão severa quanto qualquer perseguição externa.

Este capítulo acompanha os primeiros protagonistas desse movimento:  Antão, Pacômio, Evágrio e Cassiano  e a disciplina cotidiana de jejum, vigília e oração que sustentava sua busca. Ao final, veremos por que esse capítulo, aparentemente tão distante da experiência pentecostal latino-americana, é, na verdade, um dos mais próximos de toda a série.

Antão do Egito: o pai dos monges e o combate no deserto

Antão nasceu por volta de 251 numa família copta relativamente próspera do Egito médio. Aos vinte anos, ainda jovem e recém-órfão de pais, ouviu ser lida na igreja a instrução de Jesus ao jovem rico: que vendesse tudo o que tinha, desse aos pobres, e o seguisse [1]. Antão tomou a palavra ao pé da letra  distribuiu suas terras, cuidou da irmã menor e, em seguida, entregou-se a uma vida de ascese progressivamente mais radical, primeiro nos arredores de sua aldeia, depois em túmulos abandonados, e finalmente, por volta de 285, numa fortaleza em ruínas em Pispir, onde viveria isolado por quase vinte anos.

É desse período de isolamento absoluto que vem o núcleo da tradição sobre Antão: a narrativa, escrita décadas depois por Atanásio de Alexandria em sua Vida de Antão, descreve um combate incessante contra pensamentos, memórias, medos e tentações que a tradição posterior chamaria de demônios  fome insuportável, lembranças da vida anterior, desejo sexual, desespero, visões aterradoras. Atanásio não retrata Antão como um herói invulnerável, mas como um homem que combate, cai, se levanta e persiste, sustentado por jejum extremo, oração contínua e uma disciplina corporal que ele mesmo compara, explicitamente, ao treinamento do atleta.

O detalhe mais revelador da narrativa talvez não seja o combate em si, mas seu desfecho: quando os companheiros finalmente derrubam a porta da fortaleza de Pispir, esperando encontrar um homem destruído por duas décadas de isolamento, encontram, ao contrário, alguém sereno, equilibrado, fisicamente saudável. A ascese, na leitura de Atanásio, não desfigura; integra. Essa obra teve um impacto que ultrapassou em muito o Egito: Agostinho de Hipona relata, em suas Confissões, que foi justamente a notícia da vida de Antão, trazida por um visitante à casa de um amigo em Milão, que precipitou a crise que o levaria à conversão [2].

De eremitas a comunidades: Pacômio e o nascimento do cenobitismo

Se Antão representa o ideal do combate solitário, Pacômio (c. 292–348) representa sua contrapartida necessária. Ex-soldado do exército romano convertido ao cristianismo após ser tratado com inesperada bondade por cristãos numa prisão de guerra, Pacômio experimentou, primeiro, a vida eremítica isolada  mas concluiu que a ascese sem estrutura comunitária corria o risco de se tornar autoindulgência disfarçada de rigor, sem ninguém para corrigir excessos ou sustentar o desanimado.

Por volta de 320, Pacômio fundou em Tabennesi, às margens do Nilo, a primeira comunidade cenobítica organizada da história cristã, um mosteiro onde os monges viviam sob o mesmo teto, partilhavam refeições, trabalho manual e horários fixos de oração comunitária, e obedeciam a um superior e a uma regra escrita. Em poucas décadas, essa forma de vida se multiplicou em vários mosteiros masculinos e femininos, reunindo milhares de monges sob a mesma disciplina.

A contribuição de Pacômio para esta série é decisiva: ele demonstra que a disciplina espiritual cristã, desde seus primeiros séculos, oscila entre dois polos legítimos e necessários  o combate pessoal e intransferível de cada crente diante de Deus, e a estrutura comunitária que sustenta, corrige e multiplica esse combate. Essa mesma tensão reaparecerá, com outro vocabulário, na Regra beneditina do século VI e, dezessete séculos depois, nas células e pequenos grupos que estruturam a vida disciplinada de tantas igrejas pentecostais latino-americanas.

Evágrio Pôntico e a cartografia da alma

Evágrio Pôntico (c. 345–399), monge letrado formado em Constantinopla antes de se estabelecer entre os eremitas do deserto de Nítria e Célia, no Egito, ofereceu à tradição ascética algo que Antão, com sua espiritualidade prática e pouco letrada, nunca pretendera oferecer: um mapa sistemático da vida interior. Em seu Tratado Prático, Evágrio identifica oito logismoi  pensamentos ou impulsos malignos que assaltam a alma , a saber: gula, fornicação, avareza, tristeza, ira, acídia, vanglória e soberba [3]. Séculos depois, essa lista seria reorganizada pelo papa Gregório Magno na tradição dos sete pecados capitais que o Ocidente conheceria.

Particularmente interessante é a descrição evagriana da acídia  o tédio espiritual, o desânimo que ataca sobretudo ao meio-dia, quando o tempo parece não passar e toda disciplina perde o sentido. Evágrio associa esse logismos ao "demônio do meio-dia" mencionado no Salmo 91 [4], oferecendo uma das primeiras análises psicológico-espirituais detalhadas de um fenômeno que qualquer pessoa que já tentou sustentar uma disciplina espiritual por semanas reconhecerá de imediato.

Para Evágrio, o objetivo de todo esse combate não é a mera repressão dos pensamentos, mas a apatheia  não impassibilidade estoica, mas a liberdade interior das paixões desordenadas, o solo a partir do qual se torna possível a oração pura, uma contemplação livre de imagens e conceitos, voltada inteiramente para Deus. Essa ênfase evagriana na oração que ultrapassa a palavra e o conceito será retomada, séculos depois, pela tradição hesicasta que examinaremos na próxima parte desta série.

João Cassiano: a ponte entre o Egito e o Ocidente

João Cassiano (c. 360–435) peregrinou por anos entre os mosteiros do Egito, recolhendo pessoalmente os ensinamentos dos grandes anciãos do deserto, antes de se estabelecer definitivamente em Marselha, na Gália, onde fundou dois mosteiros e escreveu duas obras que se tornariam o principal canal de transmissão da sabedoria egípcia para o cristianismo latino: as Instituições Cenobíticas e as Conferências.

Nas Conferências, Cassiano registra um ensinamento sobre a oração contínua que se tornaria seminal para toda a espiritualidade ocidental posterior: a recomendação de que o monge fixe a mente, ao longo de todo o dia e de toda ocupação, num único versículo curto  Cassiano recomenda especificamente o primeiro versículo do Salmo 70: Ó Deus, vem me livrar; Senhor, apressa-te em socorrer-me [5]. Repetida incessantemente, essa breve súplica funcionaria como âncora da mente errante, disponível em qualquer circunstância, sem exigir tempo separado nem lugar específico.

Essa técnica  uma frase curta, cristológica ou bíblica, repetida sem cessar como disciplina de oração contínua  é o elo perdido entre a prática apostólica de "orar sempre" e a Oração de Jesus que a tradição oriental desenvolverá plenamente, como veremos na próxima parte desta série. As obras de Cassiano exerceriam, ainda, influência direta sobre a Regra de São Bento, que examinaremos no Bloco II, tornando-o uma das figuras de charneira mais importantes  e menos lembradas  de toda a história da disciplina espiritual cristã.

Jejum, vigília e trabalho: a disciplina cotidiana do deserto

Por trás dessas figuras e desses tratados havia uma rotina extraordinariamente concreta. Os monges do deserto egípcio tipicamente faziam uma única refeição por dia, muitas vezes após o pôr do sol, composta de pão, sal, água e, ocasionalmente, algumas verduras; carne era praticamente ausente. O jejum não era exceção ritual, mas condição ordinária de vida  o oposto exato do padrão contemporâneo, em que o jejum é a interrupção pontual de uma rotina normalmente farta.

O trabalho manual  sobretudo a tecelagem de cestos e esteiras com folhas de palmeira  ocupava boa parte do dia, tanto por necessidade de subsistência quanto como antídoto deliberado contra a acídia evagriana: a mente ociosa, ensinavam os anciãos, é terreno fértil para o desânimo e a tentação. As vigílias noturnas, sustentadas pela recitação contínua dos Salmos  o saltério inteiro, muitas vezes, ao longo de uma semana , formavam a espinha dorsal da vida de oração, antecipando o que mais tarde se tornaria o ofício divino monástico.

Boa parte dessa sabedoria prática chegou até nós na forma de apotegmas  os Ditos dos Padres do Deserto, breves anedotas e sentenças atribuídas a figuras como Abba Poêmen, Abba Moisés ou Amma Sinclética, compiladas e transmitidas oralmente antes de serem registradas por escrito. Sua marca distintiva é a ausência quase total de especulação abstrata: são respostas concretas, muitas vezes surpreendentes, a perguntas concretas sobre como orar, como jejuar, como lidar com a raiva ou o orgulho  teologia pastoral em estado puro, nascida da experiência e não do gabinete.

Do combate espiritual do deserto à guerra espiritual pentecostal

É neste ponto que o deserto egípcio, aparentemente tão remoto, se aproxima com força surpreendente da espiritualidade pentecostal contemporânea. Os padres do deserto entendiam a vida interior como um campo de batalha real, onde forças espirituais hostis assaltam a mente e a vontade  e essa convicção exigia deles vigilância disciplinada, discernimento cuidadoso e, com frequência, o apoio de um pai ou mãe espiritual mais experiente.

O pentecostalismo latino-americano, com seu vocabulário próprio de guerra espiritual, cultos de libertação, jejuns de combate e discernimento de espíritos [6], reconhece intuitivamente a mesma convicção fundamental: que a fé cristã não se vive num terreno neutro, e que a disciplina  jejum, oração, vigilância  não é adorno devocional, mas armadura necessária, na linguagem de Paulo aos Efésios, contra as "assistências espirituais da maldade" [7].

É preciso, ao mesmo tempo, reconhecer uma diferença real: a ascese do deserto era predominantemente silenciosa, solitária e de longuíssima duração, ao passo que a guerra espiritual pentecostal é tipicamente comunitária, vocal e episódica. Mas a diferença de forma não deve obscurecer a convicção teológica comum: ambas as tradições recusam uma espiritualidade passiva, que assume a vitória sem exigir vigilância disciplinada para sustentá-la. Antão, tanto quanto qualquer pastor pentecostal que convoca sua congregação a um jejum de combate, sabia que a paz interior não é ausência de luta, mas fruto de um combate travado com disciplina e não abandonado.

Fica, ao final deste capítulo, um fio solto que a próxima parte desta série recolherá: a fórmula breve que Cassiano ensinava a repetir sem cessar  "Ó Deus, vem me livrar"  era apenas o embrião de uma tradição de oração incessante que a igreja oriental levaria a um desenvolvimento muito mais elaborado. Na próxima parte, seguimos essa linhagem até Constantinopla e o Monte Atos, onde a oração aprenderá, literalmente, a se tornar respiração.

Notas

1. Mateus 19.21, ACF (paráfrase).

2. Agostinho de Hipona, Confissões, Livro VIII, 6.14-15.

3. Evágrio Pôntico, Tratado Prático, caps. 6-14 (lista clássica dos oito logismoi).

4. Salmo 91.6, ACF  tradicionalmente associado, na exegese patrística, ao "mal que se alastra ao meio-dia".

5. Salmo 70.1, ACF (paráfrase); cf. João Cassiano, Conferências X.10.

6. 1 Coríntios 12.10, sobre o discernimento de espíritos como dom espiritual.

7.  Efésios 6.10-18, ACF (paráfrase), especialmente o v. 12.


Referências Bibliográficas

Bíblia Sagrada. Almeida Corrigida Fiel (ACF).

AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões. São Paulo: Paulus.

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Vida de Antão. São Paulo: Paulus.

CASSIANO, João. Conferências. Rio de Janeiro: Paulinas.

CASSIANO, João. Instituições Cenobíticas. Rio de Janeiro: Paulinas.

CHITTY, Derwas J. The Desert a City. Crestwood: St Vladimir's Seminary Press.

EVÁGRIO PÔNTICO. Tratado Prático  Sobre os Oito Pensamentos Malignos. São Paulo: Paulus.

FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina. São Paulo: Mundo Cristão.

GONZÁLEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão, vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã.

LAND, Steven J. Pentecostal Spirituality: A Passion for the Kingdom. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1993.

MERTON, Thomas. A Sabedoria do Deserto. São Paulo: Paulus.

WAGNER, C. Peter. Oração de Guerra. Belo Horizonte: Editora Betânia.

WARD, Benedicta (trad.). Ditos dos Padres do Deserto. São Paulo: Paulus.

WILLARD, Dallas. O Espírito das Disciplinas. São Paulo: Editora Vida.


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